GENEBRA (Suíça) – A Comissão Internacional Independente de Inquérito da ONU concluiu que Israel cometeu atos de genocídio contra a população palestina na Faixa de Gaza. O relatório, divulgado nesta terça-feira (16), responsabiliza diretamente autoridades civis e militares israelenses por quatro dos cinco atos previstos na Convenção da ONU para a Prevenção e Punição do Crime de Genocídio, de 1948.
Segundo o documento, os atos identificados incluem assassinatos em massa, danos físicos e mentais graves, imposição de condições de vida insustentáveis e medidas para impedir nascimentos entre os palestinos. O relatório foi publicado em meio à intensificação da ofensiva israelense na Cidade de Gaza, que já deixou ao menos 62.004 mortos desde outubro de 2023, segundo o Ministério da Saúde do território, controlado pelo Hamas.
“A única conclusão plausível diante da natureza das operações em Gaza é que existe intenção genocida”, afirmou Chris Sidoti, integrante da comissão. A presidente do grupo, Navi Pillay, reforçou que a investigação revela “intenção clara de destruir os palestinos em Gaza”.
A escalada da violência coincide com um agravamento da crise humanitária. Estima-se que 1 milhão de pessoas enfrentem fome confirmada na região. “Condenamos a escalada mortal da ofensiva militar israelense que vimos no fim de semana, com dezenas de mortos e feridos”, declarou Stéphane Dujarric, porta-voz do secretário-geral da ONU, António Guterres.
Nos últimos quatro dias, 10 instalações da UNRWA, incluindo escolas e clínicas usadas como abrigos, foram atingidas por bombardeios. A ONU também denuncia a destruição sistemática de hospitais, escolas e infraestrutura civil, além de relatos de violência sexual e ataques direcionados contra crianças palestinas.
O governo israelense reagiu com veemência ao relatório. Em Genebra, o embaixador Danny Hanon classificou as conclusões como “tendenciosas” e acusou a comissão de promover “uma narrativa a serviço do Hamas”. Segundo ele, a acusação de genocídio é infundada e visa “demonizar o Estado de Israel”.
A comissão, composta por especialistas indicados pelo Conselho de Direitos Humanos da ONU, reiterou ainda que Israel está descumprindo as ordens da Corte Internacional de Justiça (CIJ), que determinou, em março de 2024, a garantia de assistência humanitária à população de Gaza.
“O silêncio da comunidade internacional diante desta campanha genocida equivale à cumplicidade”, alertou Pillay.

Paralelamente, a ONU condenou um recente ataque israelense contra membros da liderança política do Hamas em Doha, no Catar, que matou seis pessoas. A chefe de Assuntos Políticos da ONU, Rosemary DiCarlo, afirmou que a ação violou a soberania do país e representa uma ameaça à estabilidade regional. Guterres classificou o episódio como uma “violação flagrante da integridade territorial do Catar” e advertiu sobre o risco de colapso das negociações em curso para a libertação de reféns e o fim do conflito.