O aumento de incidentes racistas na Irlanda tem gerado alerta entre comunidades de imigrantes, especialmente brasileiros e indianos. Em meio a uma onda de ataques verbais e físicos registrados neste ano, relatos expõem o avanço de discursos de ódio e da extrema-direita no país, tradicionalmente visto como acolhedor. As autoridades irlandesas reconhecem a escalada e prometem reforçar a aplicação da lei contra crimes motivados por preconceito.
“Mandou eu voltar para a África”
A cabeleireira brasileira Lays Mendes vive há oito anos em Dublin, capital do país, e diz que se acostumou a ouvir ofensas racistas vindas da mesma mulher que passa semanalmente em frente ao salão onde trabalha. O episódio mais agressivo aconteceu em julho, quando a acusada a insultou diretamente.
“Ela disse: ‘Vocês são africanos, vocês pertencem à África. Vocês assassinam nossas crianças, nossa juventude, nossa vida. Nós não queremos vocês no nosso país’”, relata Lays.
“Quando a gente sofre racismo, as pessoas geralmente não são tão diretas. Mas ela foi. O olhar dela, de ódio e desprezo, foi pesado demais.”

Lays registrou queixa na polícia e recebeu apoio psicológico. No entanto, as autoridades informaram que só poderiam tomar medidas legais caso a mulher repetisse a agressão.
Comunidade indiana também na mira
A violência também atinge a comunidade indiana. O chef premiado Laxman Das foi brutalmente agredido por três homens enquanto ia de bicicleta para o trabalho. Eles quebraram seu capacete, roubaram seus pertences e deixaram a vítima com medo de circular pelas ruas onde vive há 20 anos.
“Estou com muito medo agora. Já entreguei tudo e eles continuaram me batendo. Acho que foi racismo”, disse Das.
De acordo com o Ireland India Council, entre 19 de julho e 19 de agosto de 2025 foram registrados 11 ataques contra pessoas de origem indiana no país — inclusive em bairros de classe média e alta, antes considerados mais seguros. As agressões envolveram adultos e crianças, algumas com necessidade de atendimento hospitalar.
Extrema-direita em ascensão
Por décadas, a Irlanda manteve baixos índices de violência racial, em contraste com outros países europeus. No entanto, pesquisadores alertam que esse cenário está mudando com o crescimento de movimentos de extrema-direita, impulsionados por influenciadores estrangeiros e por políticos populistas locais.
Segundo Eugenia Siapera, codiretora do Centro de Política Digital da University College Dublin, “é a crônica de uma história predita. O discurso de ódio e a instrumentalização de migrantes como bodes expiatórios vêm crescendo há anos”.
Grupos extremistas têm se articulado com apoio de figuras internacionais, como o ativista britânico Tommy Robinson, e contam com amplificação de suas mensagens em redes como TikTok e Telegram.
Resposta do governo e críticas
O Departamento de Justiça, Assuntos Internos e Imigração da Irlanda afirmou que está “determinado a erradicar crimes motivados pelo ódio” e citou a lei aprovada em 2024, que prevê punições mais severas para crimes motivados por preconceito. Também mencionou o Plano Nacional de Ação Contra o Racismo como parte da resposta institucional.
Apesar disso, imigrantes relatam sensação crescente de insegurança. Rahul (nome fictício), designer indiano atacado por adolescentes, afirma que pensa em deixar o país.
“Depois de tudo o que vimos, definitivamente não será um lugar onde criaremos nossos filhos”, disse.

Casos em alta
Dados oficiais da Garda Síochána (polícia irlandesa) mostram que os crimes de ódio subiram 4% em 2024, totalizando 676 registros. O órgão diz manter cerca de 600 agentes especializados em diversidade e afirma trabalhar para proteger comunidades vulneráveis.
Especialistas, no entanto, alertam que o aumento de incidentes pode acelerar se medidas mais contundentes não forem adotadas. “O povo irlandês negou as tendências racistas por tanto tempo que elas se agravaram”, afirma Lamia Tadjine, organizadora de movimentos antirracistas no país.