Mais de sete meses após o derramamento de resíduos tóxicos que devastou o rio Kafue, comunidades inteiras na Zâmbia continuam sem respostas — nem justiça. O desastre, provocado pelo rompimento de uma barragem de rejeitos da mineradora Sino-Metals Leach, de propriedade estatal chinesa, é considerado um dos piores desastres ambientais da história do país. O vazamento de mais de 50 milhões de litros de lama ácida contaminou rios, destruiu plantações e provocou doenças em centenas de pessoas.
“Estes chineses vieram destruir os meus campos de milho. É como se estivessem a matar-me duas vezes”, lamentou Margaret Musongole, agricultora da comunidade de Mwambashi, ao ver suas terras e colheitas cobertas por lama tóxica. “Eu costumava vender no mercado de Chisokone, mas agora não há negócio, nem vida”, completou.
A mineradora atribuiu o colapso da estrutura a fortes chuvas e danos causados por “roubos” de equipamentos, mas a Instituição de Engenharia da Zâmbia apontou falhas graves de projeto e negligência operacional. O governo chinês, por sua vez, defendeu que as empresas “assumiram ativamente suas responsabilidades”, enquanto a China Nonferrous Mining Corp., controladora da Sino-Metals, minimizou o impacto do acidente ao declarar que houve apenas um “vazamento parcial”.
Tensão e desconfiança
Apesar das garantias oficiais, análises independentes indicam níveis alarmantes de metais pesados como arsênio, chumbo, urânio e cádmio nos cursos d’água e solos próximos à mina. Um relatório encomendado pela embaixada da Finlândia confirmou a presença de 24 metais tóxicos em amostras coletadas até 100 quilômetros do epicentro do vazamento.
Para Luwi Nguluka, diretor de comunicações da ONG Wildlife Crime Prevention, a situação é mais grave do que o governo admite:
“Mesmo que os níveis de acidez normalizem, os metais pesados persistirão no sistema fluvial por anos. O impacto sobre a biodiversidade e sobre as pessoas que dependem da pesca será devastador.”
A empresa sul-africana Drizit Environmental, contratada para avaliar os danos, calculou que 1,5 milhão de toneladas métricas de resíduos foram liberadas, mas foi demitida pela mineradora um dia antes de apresentar o relatório final. Em nota, a Drizit alertou para riscos graves de malformações congênitas, câncer e doenças crônicas decorrentes da exposição contínua.
Comunidades sem apoio
Cerca de 12 milhões de zambianos vivem na bacia do rio Kafue — fonte de água potável para quase metade da população do país. Desde o desastre, moradores relatam sintomas como irritação na pele, problemas respiratórios, sangramentos nasais e sangue na urina.
“Continuamos a beber e usar a mesma água porque não temos escolha. Ninguém nos trouxe ajuda real”, disse Emmanuel Mwape, pescador da região de Kalulushi.
Mesmo após ordens do governo para compensar agricultores afetados, os pagamentos variaram entre 17 e 2.000 dólares, valores considerados “insultuosos” pelas organizações civis locais. Pior: muitos moradores tiveram de assinar documentos renunciando ao direito de processar a empresa em troca da indenização mínima.
“A maioria não sabia o que estava assinando. Muitos são analfabetos e foram pressionados a aceitar o acordo”, denunciou o advogado Malisa Batakathi, que representa dezenas de famílias atingidas.
Medo e silêncio
Além da poluição e da pobreza, o medo domina as comunidades. Ações judiciais em curso afirmam que a Sino-Metals teria ameaçado moradores e ativistas locais, dizendo monitorar as vilas com drones e grampear telefones. “As pessoas estão aterrorizadas. Elas têm medo de falar, medo de adoecer, medo de morrer”, relatou uma representante da sociedade civil que pediu anonimato.
Grupos ambientais e defensores dos direitos humanos acusam o governo da Zâmbia de minimizar os riscos para proteger interesses econômicos. O país deve mais de 4 bilhões de dólares à China e espera novos investimentos chineses em cobre, principal produto de exportação zambiano.
“A influência econômica e política da China pode minar os esforços para responsabilizar a mineradora. É uma relação de dependência perigosa”, alertou Maggie Mwape, uma das principais vozes da sociedade civil zambiana.

Promessas e incertezas
A vice-presidente Mutale Nalumango reconheceu que os US$ 580 mil reservados para indenizações “podem não ser suficientes” e prometeu “uma avaliação completa e independente”.
“Quando há clamor do nosso povo, a segurança dele deve vir em primeiro lugar. Isso não é negociável”, declarou.
Enquanto as águas do rio Kafue continuam turvas e os moradores seguem sem alternativas, o episódio se torna um símbolo da fragilidade ambiental e social da Zâmbia diante do poder econômico chinês.
“Vai fazer retroceder as relações entre a Zâmbia e a China de uma forma muito prejudicial”, avaliou o pesquisador Emmanuel Matambo, da Universidade de Joanesburgo.
Para os habitantes da região, no entanto, o futuro ainda é de incerteza.
“A água que bebemos hoje pode nos matar amanhã. Mas o que mais podemos fazer?”, questiona a agricultora Margaret Musongole, com os olhos marejados diante de um rio que, por décadas, sustentou sua vida — e que agora carrega apenas o silêncio tóxico de uma tragédia anunciada.
