Sete anos depois do rompimento da barragem Córrego do Feijão, que causou a morte de 272 pessoas em Brumadinho, dois vazamentos de água turva e sedimentos registrados em minas da mineradora Vale S.A. no interior de Minas Gerais voltaram a acender o alerta sobre a segurança das operações de mineração no estado e as consequências ambientais e judiciais desses incidentes.
Entre os dias 25 e 26 de janeiro de 2026, foram registrados dois extravasamentos em estruturas de mineração nos municípios de Congonhas e Ouro Preto: um na Mina de Fábrica e outro na Mina de Viga — ambos operados pela Vale.
O que aconteceu nos vazamentos
No primeiro episódio, na Mina de Fábrica, uma estrutura de contenção falhou, permitindo que cerca de 263 mil metros cúbicos de água turva misturada com sedimentos minerais escapassem da cava e seguissem pelo dique Freitas em direção a cursos d’água locais. Esse material atingiu áreas da mineradora CSN Mineração, provocando danos materiais a estruturas como almoxarifado, oficinas e acessos internos. Posteriormente, a lama avançou pelo rio Goiabeiras — que atravessa áreas urbanas — até desaguar no rio Maranhão.
Menos de 24 horas depois, na Mina de Viga, também em Congonhas, houve outro extravasamento de água com sedimentos que alcançou o rio Maranhão, amplificando a preocupação ambiental na região.
Autoridades afirmam que, apesar da grande ocorrência de água turva com material de beneficiamento mineral, não foram registradas vítimas humanas e os eventos não envolveram rupturas de grandes barragens de rejeitos tradicionais, mas sim falhas em estruturas de contenção e drenagem de água das minas.
Prejuízos ambientais e impactos concretos
Embora ainda não exista um cálculo final consolidado dos custos totais dos danos, as apurações preliminares apontam efeitos visíveis:
- Assoreamento de córregos e cursos d’água, com sedimentação que pode sufocar fauna e flora aquática.
- Aumento acentuado da turbidez da água, em alguns trechos acima de 30 vezes os limites normativos, tornando temporariamente a água imprópria para usos múltiplos.
- Danos materiais registrados em áreas operacionais da CSN Mineração, atingidas pelo fluxo de material.
- Possível redução de qualidade da água, com efeitos a médio prazo sobre o ecossistema aquático e margens ripárias.
Autoridades ambientais também observaram que as chuvas intensas podem ter agravado o controle das estruturas e contribuído para a instabilidade dos sistemas de drenagem.
Providências imediatas e respostas das autoridades
Logo após a confirmação dos vazamentos, diversas medidas foram tomadas:
- Suspensão das operações
O governo de Minas Gerais determinou a suspensão das atividades da Vale nas minas de Fábrica e Viga por tempo indeterminado, enquanto a situação é investigada e medidas emergenciais são adotadas.
- Multas ampliadas
A empresa foi inicialmente multada em R$ 1,7 milhão por danos ambientais; devido à reincidência, o valor da penalização foi aumentado para R$ 3,3 milhões pelo estado.
- Cobranças e ofícios federais
O ministro de Minas e Energia determinou a abertura de processo junto à Agência Nacional de Mineração (ANM) para apurar responsabilidades e exigir soluções imediatas, incluindo a possibilidade de interdição completa das operações caso a segurança do meio ambiente ou das comunidades seja ameaçada.
- Ações do Ministério Público Federal (MPF)
O MPF ajuizou ações civis públicas pedindo bloqueio de recursos patrimoniais superiores a R$ 1,2 bilhão da mineradora para garantir que haja fundos suficientes para reparação dos danos ambientais decorrentes dos vazamentos. Isso inclui:
- R$ 1 bilhão relativo ao extravasamento na Mina de Fábrica;
- R$ 200 milhões referentes ao vazamento na Mina de Viga.
Além do bloqueio de ativos, o MPF quer que a Vale seja obrigada a contratar auditoria técnica independente para acompanhar obras de segurança e elaborar relatórios completos sobre a condição de outras estruturas semelhantes no estado.
O que ainda precisa ser feito
Especialistas e órgãos ambientais destacam que as providências até agora são apenas o início de um processo mais amplo de responsabilização e recuperação, que inclui:
- Perícias detalhadas de impacto ambiental para mensurar os efeitos de longo prazo sobre água, solo e biodiversidade.
- Elaboração e execução de planos de recuperação de áreas degradadas, com desassoreamento de cursos d’água e reflorestamento de margens afetadas.
- Monitoramento contínuo da qualidade da água nos rios Maranhão e Paraopeba para identificar riscos potenciais à saúde pública e à vida aquática.
- Fiscalização rigorosa de outras estruturas da Vale em Minas Gerais, garantindo que sistemas de drenagem e contenção sejam capazes de resistir a eventos climáticos extremos e operações contínuas.
- Participação comunitária e transparência, com audiências públicas envolvendo moradores, organizações ambientais e governo.
Reparações e cobranças bilionárias
Além das multas e bloqueios, as ações judiciais movidas por órgãos públicos visam assegurar que a Vale arque com:
- Reparação integral dos danos ambientais causados pelos vazamentos;
- Indenizações por prejuízos materiais a terceiros, incluindo empresas afetadas;
- Compensações por perdas ecológicas, sociais e econômicas decorrentes das mudanças provocadas nos cursos d’água e ecossistemas.
Segundo documentos divulgados pela própria mineradora, existem três medidas judiciais relacionadas aos eventos, cujos pedidos acumulados de bloqueio somam mais de R$ 2 bilhões — incluindo requerimentos do estado de Minas Gerais, do MPF e do Ministério Público estadual.
Contexto mais amplo e lições de Brumadinho
Para muitos analistas e políticos, os episódios reacendem o debate sobre a eficácia das normas de segurança e fiscalização sobre mineração no Brasil, especialmente no estado que já viveu desastres como o de Brumadinho em 2019. Autoridades públicas, como o governador mineiro, classificaram os vazamentos como um “sinal de alerta” sobre possíveis fragilidades em procedimentos e controles técnicos das minas.
Conclusão
Os vazamentos de janeiro de 2026 representam um episódio preocupante no histórico de operações da Vale em Minas Gerais. Apesar de não terem causado vítimas humanas, os incidentes tiveram impactos ambientais imediatos e mobilizaram autoridades para ações judiciais e administrativas de grande alcance, incluindo bloqueios bilionários de patrimônio da mineradora e exigências de medidas corretivas e de segurança. O caso ainda está em desenvolvimento, e os efeitos de longo prazo, tanto ambientais quanto legais, permanecem sob avaliação das autoridades competentes.