A Coreia do Sul colocou em operação uma das maiores usinas solares flutuantes do mundo na barragem de Andong, inaugurando um modelo de geração híbrida que combina energia fotovoltaica e hidrelétrica com impacto ambiental reduzido e participação direta da população local nos lucros. A tecnologia, que cresce rapidamente em países com pouco espaço disponível, também avança no Brasil, onde o Rio São Francisco se prepara para receber cinco plantas solares flutuantes já a partir deste ano.
Instalada ao lado de uma usina hidrelétrica na província de Gyeongsangbuk-do, a usina sul-coreana ocupa a superfície do reservatório com 16 plataformas flutuantes interligadas, formando padrões inspirados na bandeira do país e em símbolos nacionais. O sistema tem capacidade de gerar 47 MW, energia suficiente para abastecer cerca de 22 mil residências por ano, e foi desenvolvido por uma parceria entre a Korea Hydro & Nuclear Power (KHNP) e a Korea Water Resources Corporation ao custo de US$ 50 milhões.
Além da inovação tecnológica, o projeto ganhou destaque por sua integração social: cerca de 4.500 moradores num raio de até 1 km terão direito a receber parte dos lucros da usina, uma estratégia para aumentar a aceitação e o envolvimento comunitário em torno de projetos de energias renováveis.
Como funciona a energia solar flutuante
As usinas solares flutuantes — também chamadas de sistemas fotovoltaicos flutuantes — utilizam placas instaladas sobre plataformas que flutuam em reservatórios, lagos ou represas. A tecnologia combina engenharia naval e energia solar e apresenta vantagens importantes:
- A água resfria os módulos, aumentando a eficiência e a produção de energia;
- Reduz a evaporação da água e a proliferação de algas;
- Dispensa o uso de grandes áreas de terra, preservando solos agrícolas e florestas;
- Pode ser instalada em reservatórios hidrelétricos já existentes, aproveitando a infraestrutura de transmissão.
Estudos realizados na Coreia do Sul mostram que essas instalações podem reduzir emissões de carbono em mais de 52 mil toneladas, aumentar a biodiversidade local e servir como abrigo para peixes — resultados que contrariam o temor inicial de impactos ambientais negativos.
O avanço no Rio São Francisco
No Brasil, o uso da energia solar flutuante está em fase de expansão, e um dos projetos mais promissores está em execução no Projeto de Integração do Rio São Francisco, conduzido pelo Ministério da Integração Nacional em parceria com o Instituto Interamericano de Cooperação para a Agricultura (IICA).
A Companhia Hidrelétrica do São Francisco (Chesf) já destinou R$ 56 milhões à implantação da primeira usina flutuante, com previsão de entrada em operação até dezembro. Outras quatro plantas estão previstas para 2025, totalizando 5 MWp, energia suficiente para abastecer cerca de cinco mil residências.
Além de gerar eletricidade limpa, os estudos apontam que as placas reduzirão a evaporação da água — um benefício crucial para regiões de seca prolongada. Segundo estimativas, um sistema de 1 MW pode economizar até 9 milhões de litros de água por ano.
Tendência global
Com o crescimento da demanda por energia limpa e a limitação de áreas terrestres para instalação de grandes usinas fotovoltaicas, as fazendas solares flutuantes deixaram de ser experimentais. A Coreia do Sul, pioneira no setor, já opera três instalações comerciais e planeja que as energias renováveis representem 20% de sua matriz energética até 2030.
O Brasil, que tem um dos maiores potenciais solares do mundo e um enorme volume de reservatórios hidrelétricos, desponta como terreno fértil para esse tipo de tecnologia. Estudos apontam que as placas solares flutuantes podem produzir até 14% mais energia do que sistemas instalados em terra, reforçando seu papel estratégico na transição energética.
