A disputa entre as companhias aéreas de baixo custo europeias ganhou um novo capítulo. A Ryanair anunciou que vai aumentar os bônus pagos a funcionários que identificarem bagagens de mão fora do padrão nos portões de embarque, elevando o valor de €1,50 (R$ 9,39) para €2,50 (R$ 15,67) por mala irregular. Além disso, o teto mensal de €80 (R$ 501,28) será eliminado, abrindo espaço para ganhos ilimitados. A medida, que entra em vigor em novembro, amplia uma estratégia que já vinha sendo adotada discretamente e promete endurecer ainda mais a fiscalização sobre passageiros.
A decisão foi anunciada pelo CEO da companhia, Michael O’Leary, durante uma coletiva de imprensa em Londres. “Queremos que todos cumpram as regras. Se você seguir as regras, não terá problemas. Não faremos qualquer apologia por reforçar nossa política de bagagens”, afirmou. O executivo destacou que cerca de 0,1% dos 200 milhões de passageiros anuais da empresa são multados por excesso de bagagem, mas que o reforço nas inspeções é essencial para manter as tarifas baixas e os voos pontuais.
Como funciona o sistema de bonificação
Com a nova regra, cada atendente poderá receber €2,50 por mala fora dos padrões detectada, sem limite de pagamentos mensais. Isso significa que, quanto mais flagrantes de bagagens irregulares, maior o bônus no fim do mês. Para o passageiro, a multa por tentar embarcar com volumes acima do permitido pode chegar a €75 (R$ 469,95).
De acordo com a política atual da companhia, a tarifa básica inclui apenas um item pessoal pequeno — de até 40 x 30 x 20 cm — que deve caber sob o assento da frente. Quem quiser levar uma mala de cabine de até 10 kg (55 x 40 x 20 cm) precisa pagar uma taxa adicional que varia de €12 (R$ 75) a €60 (R$ 377), dependendo da rota e do momento da compra. Caso o peso ultrapasse o limite permitido, é cobrada uma taxa de €13 (R$ 82) por quilo excedente.
Estratégia financeira e polêmica
A medida, que transforma a triagem de bagagens em um indicador de desempenho, é vista internamente como uma jogada lucrativa: gera receita extra com taxas, reduz atrasos no embarque e fortalece a imagem de eficiência operacional. O valor pago aos funcionários é simbólico perto da cobrança aplicada aos passageiros — tornando o bônus um estímulo barato para aumentar a arrecadação.
Em julho, a easyJet havia tentado uma iniciativa semelhante, oferecendo £1,20 (cerca de R$ 8) por mala irregular a funcionários terceirizados da Swissport, no Reino Unido. Após críticas, a companhia acabou recuando da estratégia. A Ryanair, porém, optou por ir na direção oposta: em vez de frear o programa, dobrou o incentivo.

Contexto regulatório e reações
A decisão vem em meio a um debate mais amplo no setor aéreo europeu. Em junho, a União Europeia discutiu uma proposta para garantir que passageiros tenham o direito de levar bagagem de mão gratuitamente em voos dentro do bloco. Caso seja aprovada, a regra poderia reduzir uma importante fonte de receita das companhias low-cost, que têm nas taxas adicionais uma parte significativa de seu faturamento.
O’Leary demonstrou ceticismo sobre a aprovação da medida e foi categórico: “Quero que nossa equipe identifique quem tenta burlar o sistema — e não peço desculpas por isso.”
Lucros em alta
A polêmica sobre as taxas de bagagem ocorre no mesmo momento em que a Ryanair anuncia lucros recordes. No primeiro trimestre do ano fiscal, a companhia registrou:
- Lucro líquido de €820 milhões (R$ 5,1 bilhões), mais que o dobro do ano anterior;
- Quase 58 milhões de passageiros transportados, alta de 4%;
- Tarifas médias 21% mais caras;
- Receita total de €4,34 bilhões (alta de 20%).
O crescimento, porém, pode ser limitado por atrasos na entrega de aeronaves da Boeing e por tensões geopolíticas. Mesmo assim, a empresa não pretende suavizar sua política de bagagens — pelo contrário: pretende transformá-la em uma de suas principais armas comerciais.
“Ainda me surpreende a quantidade de pessoas que acham que podem embarcar com mochilas enormes e que não vamos perceber. Vamos perceber, e elas vão pagar por isso”, reforçou O’Leary.
Com os novos incentivos, tentar embarcar com malas fora do padrão nos voos da Ryanair está prestes a ficar — literalmente — mais caro.