O senador centrista Rodrigo Paz foi eleito presidente da Bolívia neste domingo (19), ao derrotar no segundo turno o ex-presidente Jorge Quiroga com 54% dos votos, após 98% das urnas apuradas. A vitória marca o fim de quase duas décadas de governos do Movimento ao Socialismo (MAS) e inaugura um novo ciclo político no país, com promessas de reformas econômicas liberais, mas sem ruptura social brusca. Paz toma posse em 8 de novembro.
Aos 58 anos, o senador assume o cargo com o discurso de “capitalismo para todos” e o compromisso de desmontar o que chama de “Estado tranca” — uma estrutura estatal burocrática que, segundo ele, sufoca o crescimento econômico. O novo governo planeja cortar impostos, fomentar crédito, descentralizar orçamentos regionais e criar um fundo de estabilização cambial para conter a escassez de dólares no país.
Filho do ex-presidente Jaime Paz Zamora, Paz construiu sua trajetória política em mais de duas décadas de atuação parlamentar e executiva, incluindo mandatos como deputado, prefeito de Tarija e senador. Apesar de vir de uma família tradicional na política boliviana, conseguiu se apresentar como um nome “de fora do sistema” ao canalizar o voto de eleitores descontentes com a polarização entre as alas ligadas a Evo Morales e Luis Arce.
A vitória de Paz foi impulsionada sobretudo por setores populares urbanos e rurais que historicamente votavam no MAS, mas que abandonaram a sigla após uma derrota expressiva no primeiro turno, em agosto. O partido obteve menos de 4% dos votos, em meio a divisões internas. Para analistas, o novo presidente conseguiu capturar o eleitorado mestiço popular — base decisiva em cidades estratégicas como El Alto.
Crise econômica e desafios
O novo presidente assume em meio à pior crise econômica da Bolívia em quatro décadas, marcada por inflação de 23%, escassez crônica de combustível e grave falta de dólares. O modelo estatista, baseado em subsídios e câmbio fixo, entrou em colapso após anos de dependência das exportações de gás natural. Paz prometeu uma agenda de reformas graduais, sem “choques” econômicos, ao contrário de seu adversário Quiroga, que defendia recorrer ao Fundo Monetário Internacional (FMI) para um pacote emergencial.
Seu plano inclui eliminar subsídios aos combustíveis com mecanismos de compensação social, recuperar recursos mantidos no exterior e ampliar a formalização da economia, onde mais de 80% da força de trabalho atua no setor informal. A proposta também prevê descentralizar 50% do orçamento nacional para governos regionais, fortalecendo a autonomia local.
De azarão a presidente eleito
Rodrigo Paz iniciou a corrida presidencial como um nome pouco expressivo, longe dos primeiros colocados nas pesquisas. Sua guinada ocorreu após formar chapa com Edman Lara, ex-capitão da polícia popular nas redes sociais por denunciar corrupção. A dupla apostou em uma campanha simples, próxima do eleitorado de base e com forte apelo anticorrupção.
O discurso populista moderado e a promessa de crescimento econômico com inclusão atraíram um espectro amplo de eleitores, de setores empresariais a trabalhadores indígenas urbanos. Paz agora terá de conciliar expectativas elevadas com ajustes fiscais necessários para estabilizar a economia.
Relações externas e influência política
A eleição também abre caminho para uma reaproximação com os Estados Unidos, após anos de distanciamento durante os governos de Evo Morales e Luis Arce. Entre os dois turnos, Paz visitou Washington e sinalizou que pretende restabelecer laços políticos e comerciais. O secretário de Estado americano, Marco Rubio, declarou que a vitória representa “uma oportunidade transformadora” para os dois países.
Mesmo fora da disputa, Evo Morales ainda mantém influência política e social, sobretudo entre comunidades indígenas. Analistas preveem que ele pode atuar como um fator de instabilidade no novo governo, enquanto tenta recompor sua base política.
Com o fim da hegemonia socialista e um país dividido entre leste e oeste — entre conservadores e setores populares —, Rodrigo Paz inicia um mandato desafiador, no qual precisará equilibrar liberalização econômica com coesão social para consolidar sua liderança.
