A Polícia Federal (PF), com apoio da Controladoria-Geral da União (CGU), deflagrou na manhã desta quarta-feira (17/09) a Operação Rejeito, que investiga um esquema bilionário de mineração ilegal em áreas protegidas de Minas Gerais, incluindo a Serra do Curral, patrimônio tombado em nível municipal, estadual e federal. A ação resultou na prisão preventiva de 15 pessoas, entre elas empresários, ex-parlamentares e servidores públicos, e na expedição de 79 mandados de busca e apreensão em cidades da Grande Belo Horizonte e Alagoas.
De acordo com a Representação Criminal, os investigados pretendiam explorar áreas de alto valor ambiental e cultural por meio de dois projetos batizados como “Projeto Taquaril” e “Projeto Rancho do Boi”. As áreas seriam mineradas pelas empresas MMF, Prisma Mineração, Irontech Mineral Ltda e Irontech Mineração S/A, com estimativa de extração de 550 mil toneladas de minério de ferro, o que geraria faturamento superior a R$ 1 bilhão.
No caso do Projeto Taquaril, o grupo pretendia minerar em larga escala dentro da Serra do Curral, ignorando o status de tombamento e a tentativa de criação do Parque Nacional da Serra do Curral, barrada por ação de um dos investigados, Gilberto Henrique Horta de Carvalho, consultor ambiental do esquema. Já o Projeto Rancho do Boi previa a aquisição de terras na margem leste da BR-381, incluindo o terreno onde funciona o tradicional restaurante de mesmo nome, adquirido em 2022 por R$ 70 milhões.
As investigações revelam que o esquema operava com base em licenças ambientais fraudulentas, corrupção de servidores públicos e uma rede de empresas de fachada e “laranjas”, criada para lavar dinheiro e ocultar os verdadeiros beneficiários. Segundo a PF, a organização já movimentou cerca de R$ 1,5 bilhão e tinha planos de atingir R$ 18 bilhões em lucros ilegais.
Entre os crimes apurados estão organização criminosa, corrupção ativa e passiva, lavagem de dinheiro e crimes ambientais. As investigações apontam ainda o pagamento sistemático de propinas a funcionários de órgãos como a Agência Nacional de Mineração (ANM), o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) e a Secretaria de Estado de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável de Minas Gerais (Semad-MG).
Os principais alvos da operação são:
Alan Cavalcante do Nascimento – Apontado como o líder da organização, é sócio oculto de diversas mineradoras e teria recebido mais de R$ 200 milhões de empresas envolvidas.
João Alberto Paixão Lages – Ex-deputado estadual pelo PMDB, atuava como articulador político e institucional do grupo, inclusive intermediando contratos fraudulentos.
Gilberto Henrique Horta de Carvalho – Geógrafo e articulador junto à Assembleia Legislativa de MG e órgãos ambientais; trabalhou para barrar o PL 1449/2023, que criaria o parque da Serra do Curral.
Rodrigo Melo Teixeira – Ex-diretor da Polícia Federal em Minas e ex-secretário municipal, é acusado de envolvimento na estrutura do grupo criminoso.
Guilherme Santana Lopes Gomes, Leandro César de Carvalho e Caio Mário Trivellato Seabra Filho – Integrantes da Agência Nacional de Mineração, são suspeitos de liberar lavras e licenças de forma irregular.
Rodrigo Franco e Arthur Delfim, da Feam, teriam emitido licenças ambientais ilegais mediante pagamento de propina, ignorando pareceres técnicos e riscos ambientais.
A Representação Criminal aponta que os projetos representariam risco direto a áreas urbanas, como o bairro Pilar, e a áreas de Preservação Permanente (APPs), com possibilidade de erosão, desestabilização de relevo e devastação de vegetação nativa.
As ações policiais resultaram ainda no bloqueio judicial de R$ 1,5 bilhão em ativos e na suspensão das atividades das empresas envolvidas. Duas pessoas seguem foragidas. Segundo a PF, a estrutura do grupo era dividida em núcleos empresarial, político e técnico, com clara hierarquia e divisão de tarefas.
A operação é resultado de meses de apuração, com base em denúncias, escutas telefônicas, documentos apreendidos e revelações exclusivas feitas pelo jornal Estado de Minas, que desde abril acompanha o avanço da mineração ilegal na Serra do Curral.