A mais letal operação policial da história do Estado do Rio de Janeiro deixou, nesta terça-feira (28), pelo menos 64 mortos, entre eles quatro policiais — dois civis e dois militares — e 60 suspeitos de integrar o Comando Vermelho (CV). A ação, que tinha como objetivo cumprir 51 mandados de prisão contra lideranças da facção nos complexos do Alemão e da Penha, na Zona Norte da capital, mobilizou 2,5 mil agentes e desencadeou uma reação criminosa sem precedentes na cidade.
De acordo com a Secretaria de Segurança, 81 pessoas foram presas e 93 fuzis apreendidos, número superior ao total recolhido em todo o mês anterior. Durante os confrontos, traficantes chegaram a usar drones para lançar explosivos sobre os policiais, além de incendiar veículos e sequestrar ônibus para bloquear vias em diversos pontos do Rio — da Avenida Ayrton Senna, na Barra da Tijuca, até o Méier, Laranjeiras e o Centro.
Caos urbano e pânico generalizado
A cidade viveu um verdadeiro colapso. Mais de 200 linhas de ônibus foram interrompidas e 71 coletivos foram incendiados ou usados como barricadas. Corredores estratégicos, como a Avenida Brasil, as linhas Amarela e Vermelha, e trechos da BR-101 e BR-040, foram interditados por horas.
Com o avanço dos confrontos, escolas e universidades suspenderam as aulas, comércios fecharam mais cedo e milhares de moradores caminharam quilômetros para voltar para casa. O Rio permaneceu em Estágio 2 de alerta por 16 horas, retornando ao nível de normalidade apenas na madrugada desta quarta-feira (29), segundo o Centro de Operações da Prefeitura.
Corpos encontrados e número de mortos pode ser ainda maior
Apesar do balanço oficial apontar 64 mortes, moradores relatam que o total pode ultrapassar 100 vítimas. Durante a madrugada, pelo menos 50 corpos foram levados por moradores até a Praça São Lucas, na Estrada José Rucas, na Penha.
Segundo o secretário da Polícia Militar, coronel Marcelo de Menezes Nogueira, esses corpos não estão incluídos na contagem oficial, e uma perícia será realizada para determinar a relação com a operação.
Moradores afirmam que muitos dos corpos foram encontrados na área de mata da Vacaria, na Serra da Misericórdia, onde houve intensos confrontos entre policiais e integrantes do CV. “Em 36 anos de favela, passando por várias operações e chacinas, nunca vi nada parecido”, afirmou o ativista Raull Santiago, que ajudou na remoção das vítimas.
A Operação Contenção
Batizada de Operação Contenção, a ação foi planejada após um ano de investigação da Delegacia de Repressão a Entorpecentes (DRE), com o apoio do Gaeco/MPRJ. O principal alvo era Edgar Alves de Andrade, o Doca, uma das lideranças do Comando Vermelho fora dos presídios.
Policiais afirmam que a incursão começou como uma operação de rotina, com rotas mapeadas para entrada e saída até o início da tarde. No entanto, a morte de quatro agentes e a violenta reação dos criminosos levaram à decisão de avançar sobre áreas de mata onde os suspeitos se esconderam. Até o fim da noite, Doca não havia sido localizado.
Facção em expansão
O episódio expõe o momento de expansão do Comando Vermelho, que nos últimos três anos recuperou força e território no Rio e em outros estados. A facção controla hoje rotas do tráfico internacional de cocaína e se expandiu por 25 estados brasileiros, segundo investigações recentes.
No Rio, o CV promoveu uma ofensiva sobre territórios antes dominados por milícias — mais de 20 favelas foram invadidas desde 2022. A facção agora busca consolidar domínio sobre Antares, em Santa Cruz, tendo nos complexos do Alemão e da Penha seu principal centro de comando.
Dia histórico e sem precedentes
A data de 28 de outubro de 2025 já entra para a história da segurança pública fluminense. Uma operação que começou com objetivo de cumprir mandados judiciais terminou marcada por drones explosivos, barricadas em toda a cidade e dezenas de corpos levados por moradores.
Para um estado acostumado com a violência urbana, o dia foi descrito por autoridades como “um ponto de inflexão”. Em meio a disputas políticas e cobranças por resultados, a operação reacendeu o debate sobre os limites da ação policial e a escalada da guerra entre Estado e facções nas favelas cariocas.
Do presídio da Ilha Grande ao comando do tráfico: a história do Comando Vermelho e a operação mais letal do Rio

Facção nasceu durante a ditadura e hoje domina favelas; megaoperação deixa 134 mortos e acende alerta de retaliações
A mais letal operação policial da história do Rio de Janeiro, realizada nesta terça-feira (28), não apenas deixou 64 mortos — entre eles quatro policiais — mas também trouxe à tona a trajetória do Comando Vermelho (CV), uma das maiores facções criminosas do país, que nasceu nas celas do Instituto Penal Cândido Mendes, na Ilha Grande, durante a ditadura militar.
Pesquisas acadêmicas e relatórios oficiais apontam que a facção surgiu do convívio forçado entre presos políticos e comuns, em condições carcerárias degradantes. O contato diário entre esses grupos facilitou a circulação de estratégias organizacionais e de disciplina, e a criação de mecanismos coletivos, como um “caixa comum” para financiar fugas e amparar familiares. Esse modelo inicial, de assistência e autogestão, consolidou o grupo como mediador dentro do sistema prisional.
Entre os fundadores, destacam-se William da Silva Lima (Professor), José Carlos dos Reis Encina (Escadinha) e Rogério Lemgruber (Bagulhão ou Marechal). Na virada para os anos 1980, a organização passou a explorar o mercado ilegal de drogas, transformando recursos originalmente destinados à sobrevivência em poder territorial fora das prisões.
Operação Contenção: o dia em que o Rio virou cenário de guerra
A megaoperação nos Complexos do Alemão e da Penha teve como alvo líderes do CV, incluindo Edgar Alves de Andrade (Doca ou Urso), principal comando da facção fora dos presídios. Com 2,5 mil agentes das polícias Civil e Militar e 32 veículos blindados, a ação cumpriu 100 mandados de prisão e 150 mandados de busca e apreensão. Até o fechamento do balanço, Doca não havia sido localizado.
A cidade viveu cenários de guerra urbana: criminosos construíram barricadas com veículos incendiados, sequestraram ônibus, bloquearam ruas estratégicas como a Linha Amarela e a Avenida Brasil, e chegaram a usar drones para lançar explosivos contra policiais. O Estágio 2 de Atenção foi declarado, indicando risco de alto impacto, e mais de 200 linhas de ônibus foram paralisadas, enquanto metrôs e barcas ficaram superlotados.
Mortes e apreensões
O número oficial de mortos é de 134, entre eles quatro policiais, 56 suspeitos e 81 presos. Foram apreendidos 93 fuzis, superior à média mensal da polícia este ano, mas ainda uma fração do arsenal do CV nos complexos. Moradores encontraram corpos na área de mata da Vacaria, que ainda não constam no balanço oficial, e alertam para a possibilidade de o total ultrapassar 100.
Risco de retaliações
O advogado e pesquisador em Segurança Pública, Jorge Tassi, alertou que o Comando Vermelho pode reagir à operação. “Uma organização criminosa como o CV trabalha com duas lógicas: operações financeiras e operações de violência. Quando é afrontada, tende a revidar, e provavelmente no mesmo nível”, explicou.
Tassi ressaltou ainda que a cooperação entre esferas de governo é fundamental para reduzir riscos de retaliação, mas que falhas de comunicação e disputas políticas podem ter impactado a operação.
O CV hoje: poder paralelo e expansão territorial

O Comando Vermelho consolidou-se ao longo de décadas como sinônimo de tráfico e poder paralelo no Rio. Atualmente, a facção domina territórios estratégicos na cidade e mantém ligações com quadrilhas de outros estados e até internacionais, explorando rotas de drogas para Europa e África. A expansão territorial no Rio vem desde 2022, com invasão de favelas antes dominadas por milícias, incluindo áreas como Gardênia Azul e o corredor da Floresta da Tijuca até Jacarepaguá.
Reações oficiais
O governador Cláudio Castro (PL) ressaltou que o estado realizou a operação sem apoio federal, destacando o combate ao que classificou de narcoterrorismo. “Os criminosos estão usando tecnologia de guerra: drones, bombas e armamentos pesados. Mas o estado está preparado”, afirmou.
O prefeito Eduardo Paes (PSD-RJ) reafirmou o papel de suporte da prefeitura e enfatizou que territórios da cidade não podem permanecer dominados por grupos criminosos, garantindo a retomada gradual da normalidade.