A Organização Mundial da Saúde (OMS) emitiu, nesta segunda-feira (13), um alerta global de saúde após a morte de dezenas de crianças na Índia atribuída ao consumo de xaropes para tosse contaminados. Três produtos — Coldrif, Respifresh TR e ReLife — fabricados por empresas indianas diferentes, apresentaram níveis perigosos de dietilenoglicol (DEG), uma substância tóxica que pode causar falência renal e levar à morte, especialmente em crianças.
As amostras contaminadas foram fabricadas pelas empresas Sresan Pharmaceutical, Rednex Pharmaceuticals e Shape Pharma. De acordo com a OMS, os lotes comprometidos não foram exportados, e a produção dos medicamentos foi suspensa pelas autoridades sanitárias indianas. As licenças dos fabricantes também foram revogadas, e os produtos recolhidos do mercado interno.
Mortes e investigação
O caso veio à tona após um surto de mortes infantis no estado de Madhya Pradesh, na região central da Índia, no fim de setembro. Ao menos 19 crianças morreram após apresentar tosse e resfriado, evoluindo rapidamente para insuficiência renal aguda. Testes laboratoriais confirmaram níveis acima do permitido de DEG nos xaropes utilizados.
Segundo o superintendente de Chhindwara, Ajau Pandey, os sintomas começaram poucos dias após o consumo do xarope Coldrif. “No início, apresentaram tosse e resfriado, depois falência renal, levando às mortes”, afirmou.
As autoridades estaduais prenderam o proprietário da Sresan Pharmaceutical e suspenderam as licenças de dois inspetores sanitários por negligência na fiscalização. Um médico também será processado por prescrever o medicamento contaminado.
Histórico de tragédias semelhantes
Este não é um episódio isolado. Em 2023, xaropes contaminados fabricados na Índia foram ligados à morte de 70 crianças na Gâmbia e de 18 no Uzbequistão. Em 2020, pelo menos 12 crianças morreram na região da Caxemira indiana após ingerirem xaropes adulterados. O país, que é o maior exportador mundial de medicamentos genéricos, enfrenta há anos denúncias de falhas de fiscalização em pequenos fabricantes e distribuição desregulada desses produtos.
Em muitos casos, o dietilenoglicol — usado industrialmente como solvente — é encontrado em medicamentos líquidos em níveis muito acima do permitido. Mesmo em pequenas quantidades, a substância pode causar danos irreversíveis aos rins, fígado e sistema nervoso central.
Raízes do problema
O uso indiscriminado de xaropes para tosse faz parte de um problema mais amplo no país. A Índia tem um mercado fragmentado de medicamentos, com forte presença de pequenos fabricantes e fiscalização limitada. Nas áreas rurais, até 75% das consultas de atenção primária são realizadas por profissionais informais, sem formação médica, que prescrevem xaropes indiscriminadamente.
Para muitas famílias, principalmente nas regiões mais pobres, os xaropes são a primeira resposta para tosses e resfriados. “Em muitas cidades, os pacientes confiam em qualquer pessoa que pareça ter conhecimento médico — desde balconistas até curandeiros locais — para tratar até mesmo problemas leves”, explica Dinesh Thakur, ex-executivo da indústria farmacêutica e especialista em saúde pública.
Além disso, a pressão de pais ansiosos e o baixo conhecimento entre profissionais de saúde contribuem para o uso excessivo desses medicamentos. “Vejo até pediatras experientes prescrevendo xaropes ineficazes ou perigosos para crianças pequenas”, afirma o pediatra Rajaram Khare, de Mumbai.
Reação das autoridades e próximos passos
Após o alerta da OMS, a Organização Central de Controle de Padrões de Medicamentos da Índia determinou a suspensão imediata das vendas dos lotes contaminados e abriu uma investigação nacional sobre a segurança de medicamentos líquidos fabricados pelas três empresas.
A OMS também pediu atenção redobrada de órgãos reguladores internacionais para possíveis exportações ilegais e alertou sobre os riscos do uso de xaropes de procedência duvidosa. A agência reforçou que medicamentos contaminados podem circular por cadeias paralelas de distribuição, principalmente em regiões de fiscalização fraca.
Especialistas pedem reformas urgentes no sistema regulatório indiano. “Cada tragédia é seguida de promessas de fiscalização, mas os casos se repetem. Isso mostra uma falha estrutural no controle da qualidade dos medicamentos”, afirmou Thakur.
Enquanto isso, médicos e autoridades de saúde recomendam cautela no uso de xaropes para tosse em crianças. A maioria das tosses infantis tem origem viral e melhora espontaneamente em poucos dias — o que torna desnecessário o uso de medicamentos potencialmente perigosos.