A Usina Nuclear de Angra 3, em Angra dos Reis (RJ), permanece parada desde 2015 e tornou-se um dos maiores impasses do setor elétrico brasileiro. Com cerca de 65% da obra concluída e projetada para gerar 1.340 megawatts de potência — energia suficiente para abastecer mais de 10 milhões de pessoas —, o empreendimento está há dez anos sem avanço efetivo e consome, anualmente, entre R$ 800 milhões e R$ 1 bilhão apenas em custos de manutenção, segurança, conservação de equipamentos e juros sobre financiamentos já contratados.
Segundo estimativas recentes do BNDES e da Eletronuclear, seriam necessários aproximadamente R$ 23 bilhões para concluir o projeto. Caso o governo opte por abandonar a obra, o prejuízo seria quase equivalente: cerca de R$ 21 bilhões, somando os contratos rompidos, a desmontagem da estrutura e o sucateamento de equipamentos importados.
A paralisação começou em 2015, após a deflagração da Operação Lava Jato, que atingiu empresas contratadas e paralisou os repasses financeiros. Desde então, sucessivos governos anunciaram planos de retomada que não saíram do papel, travados por impasses políticos, ambientais e orçamentários.
Além das perdas financeiras diretas, especialistas alertam que a inércia de Angra 3 representa um risco estratégico para o sistema elétrico brasileiro. O país deixa de contar com uma fonte de energia contínua — não dependente do regime de chuvas — e se vê obrigado, em períodos de seca, a acionar usinas termelétricas mais caras, o que pressiona as tarifas e encarece o custo da energia.
A manutenção da estrutura também preocupa. Relatórios internos da Eletronuclear indicam que parte dos equipamentos estocados há mais de uma década exige constante monitoramento para evitar deterioração, aumentando o custo e a complexidade de uma eventual retomada.
Mesmo inacabada, Angra 3 continua gerando impacto econômico. O pagamento de encargos e a conservação do canteiro de obras em Angra dos Reis representam, segundo parlamentares e técnicos do setor, um “rombo invisível” de quase R$ 1 bilhão por ano — valor que pesa nas contas da Eletronuclear e, indiretamente, sobre o consumidor de energia.
Em 2025, o governo federal e o Conselho Nacional de Política Energética (CNPE) retomaram estudos para decidir se o projeto será finalmente concluído ou encerrado de forma definitiva. Enquanto isso, Angra 3 segue como um símbolo do alto custo da indefinição: um empreendimento bilionário, inacabado e cercado de dúvidas sobre seu papel no futuro energético do Brasil.