O cantor e compositor jamaicano Jimmy Cliff, um dos maiores nomes da história do reggae, morreu nesta segunda-feira (24), aos 81 anos. A informação foi confirmada em um comunicado publicado no perfil oficial do artista no Instagram e assinado por sua esposa, Latifa, que informou que o músico sofreu uma convulsão seguida de pneumonia. A família pediu privacidade e afirmou que mais detalhes serão divulgados posteriormente.
“É com profunda tristeza que compartilho que meu marido, Jimmy Cliff, partiu após uma convulsão seguida de pneumonia”, escreveu Latifa. “Aos fãs ao redor do mundo, saibam que o apoio de vocês foi sua força durante toda a carreira.”
A nota também foi assinada pelos filhos Lilty e Aken, e encerra com a mensagem: “See you and we see you, Legend.”
Uma voz que mudou a música jamaicana
Nascido James Chambers, em St. James, na Jamaica, em 1944, Jimmy Cliff começou a compor ainda adolescente. Seu primeiro sucesso, “Hurricane Hattie”, lançado em 1962, o impulsionou para a cena internacional e marcou o início de uma carreira que ultrapassaria seis décadas.
Cliff foi um dos principais responsáveis por levar o reggae ao exterior antes mesmo da explosão mundial de Bob Marley. Combinando reggae, ska e soul music, ele se tornou uma figura indispensável para a cultura jamaicana, celebrada não apenas pela música, mas pela atuação no cinema.
Em 1972, estrelou o filme “The Harder They Come” — e assinou parte da trilha sonora, que inclui os clássicos “You Can Get It If You Really Want”, “Many Rivers to Cross”, “Sitting in Limbo” e a faixa-título. O longa se tornou um marco cultural e é considerado decisivo para a internacionalização do reggae.
Sua importância foi reconhecida em 2010, quando entrou para o Rock and Roll Hall of Fame, sendo o único jamaicano a dividir a honraria com Bob Marley.
Carreira, parcerias e hits que atravessaram gerações
Entre os álbuns mais marcantes estão “Hard Road to Travel” (1967) e o disco homônimo de 1969, que consolidou seu nome mundialmente. Suas músicas abordavam espiritualidade, crítica social, amor e resistência — temas que o acompanharam por toda a trajetória.
Cliff colaborou ou foi reinterpretado por gigantes como The Rolling Stones, Elvis Costello, Annie Lennox, Paul Simon, Bruce Springsteen, Cher, New Order, Fiona Apple e Willie Nelson. Em 1993, sua versão de “I Can See Clearly Now” integrou a trilha sonora de Cool Runnings e se tornou outro hit mundial.
Ele ganhou dois Grammy Awards, pelos álbuns Cliff Hanger (1985) e Rebirth (2012). Este último figurou entre os “50 Melhores Álbuns de 2012” da revista Rolling Stone.
Seu lançamento mais recente, o single “Human Touch” (2021), revisitava a sonoridade do reggae dos anos 1960 com reflexões sobre solidão e conexão em um mundo pós-pandemia.
Laços profundos com o Brasil
O Brasil ocupou posição especial na vida e na carreira de Jimmy Cliff. A relação começou em 1968, quando o artista desembarcou no Rio de Janeiro para participar do Festival Internacional da Canção com “Waterfall”. A passagem o inspirou a compor “Wonderful World, Beautiful People” e a gravar o LP “Jimmy Cliff in Brazil”, com versões em inglês de canções brasileiras.
Durante os anos 1980, Cliff esteve tantas vezes no país que virou figura folclórica entre fãs cariocas — que brincavam que bastava caminhar pela Zona Sul para encontrá-lo. Em 1984, reforçou os laços ao gravar nas praias do Rio o clipe de “We All Are One”, dirigido por Tizuka Yamasaki.
A Bahia também teve papel marcante em sua trajetória. O estado foi palco de experiências espirituais ligadas à cultura afro-brasileira, que o tocaram profundamente. Em Salvador nasceu, em 1992, sua filha Nabiyah Be, fruto da relação com a psicóloga baiana Sônia Gomes da Silva. Hoje atriz, Nabiyah participou do filme Pantera Negra, sucesso mundial da Marvel.
Outro momento marcante ocorreu em 1980, quando Cliff recebeu a notícia da morte do pai minutos antes de subir ao palco ao lado de Gilberto Gil, no estádio da Fonte Nova — um show histórico para 60 mil pessoas. Mesmo abalado, decidiu cantar. “Veio uma energia muito forte aquela noite”, recordaria mais tarde.
Cliff também viu sua música ser reinterpretada no Brasil. Em 1999, os Titãs imortalizaram a versão nacional de “The Harder They Come” — transformada em “Querem Meu Sangue” — no célebre Acústico MTV.
Um legado que não silencia
Jimmy Cliff dedicou mais de 60 anos à música e manteve a crença de que ainda buscava sua “melhor canção”. Em entrevista de 2015, definiu: “A música é como o oxigênio. Todos precisam dela para seguir vivos”.
Sua morte deixa uma lacuna imensa na música jamaicana, na cultura afro-caribenha e na memória afetiva de milhões de fãs ao redor do mundo — especialmente no Brasil, que o acolheu como um de seus artistas de alma.
Mas seu legado permanece: em cada versão de “Many Rivers to Cross”, em cada acorde de resistência, em cada artista influenciado por sua obra.
Jimmy Cliff se despede — mas sua voz, seu espírito e suas melodias seguem atravessando fronteiras.