O incêndio que devastou o complexo residencial Wang Fuk Court, em Tai Po, Hong Kong, na quarta-feira (26), foi oficialmente extinto após mais de 40 horas de combate, mas o número de vítimas continua a subir. Até esta sexta-feira (28), 128 mortes foram confirmadas e cerca de 200 moradores seguem desaparecidos, no que já é classificado como o pior incêndio na cidade em quase 80 anos. As autoridades admitem que o total pode aumentar nos próximos dias, à medida que equipes forenses avançam nas buscas pelos prédios carbonizados.
Resgates difíceis e temperaturas extremas
Mais de 70 pessoas seguem hospitalizadas, algumas em estado crítico. De acordo com o secretário de Segurança de Hong Kong, Chris Tang, mais de cem corpos foram retirados dos edifícios, mas muitos estavam irreconhecíveis devido ao nível extremo de carbonização. Apenas 39 vítimas foram identificadas até o momento.
O comissário de polícia Joe Chow informou que algumas áreas internas ainda registram temperaturas próximas de 200°C, o que impede o acesso dos investigadores. Bombeiros continuam a lançar água para evitar o reacendimento.
Enquanto isso, familiares das vítimas se reúnem em um centro comunitário próximo, onde autoridades exibem fotografias e tentam auxiliar na identificação dos mortos. Outros permanecem do lado de fora do complexo, aguardando notícias.
O início do fogo e a rápida propagação
O incêndio começou em um prédio de 32 andares que passava por obras de renovação e se espalhou rapidamente por seis torres vizinhas — sete dos oito blocos do conjunto foram consumidos pelas chamas. Segundo o governo, materiais de construção altamente inflamáveis usados na obra, incluindo lonas de cobertura, andaimes de bambu e espuma de poliestireno, contribuíram para o avanço acelerado do fogo ao permitirem que janelas superaqueessem, estourassem e liberassem a passagem das chamas.
Entre as vítimas está Ho Wai-ho, bombeiro de 37 anos e veterano de guerra, que colapsou durante as operações de resgate e morreu posteriormente no hospital. Segundo Tang, o trabalho dos bombeiros foi dificultado por corredores bloqueados, queda de varas de bambu em chamas e a necessidade de vasculhar manualmente cada apartamento.
Alarmes falharam e moradores precisaram avisar uns aos outros
As autoridades confirmaram que os alarmes de incêndio do complexo não funcionaram. Moradores relataram que não ouviram nenhum aviso sonoro e que tiveram de telefonar para familiares e bater de porta em porta para alertar vizinhos. A falha no sistema torna-se agora um dos principais focos da investigação.
Prisões, corrupção e investigações em andamento
A Comissão Independente Contra a Corrupção prendeu oito pessoas nesta sexta-feira — entre elas consultores de engenharia, empreiteiros de andaimes e um intermediário ligados às obras. Documentos e registros bancários foram apreendidos em 13 locais.
As detenções se somam às três prisões realizadas na quinta-feira (27), incluindo diretores da empresa responsável pela reforma. Todos são investigados por homicídio culposo e negligência grave.
O governo também abriu investigações em 11 outros projetos residenciais conduzidos pela mesma companhia.
O Departamento do Trabalho revelou que realizou 16 inspeções no canteiro de obras desde julho de 2024 e que, na última visita, dias antes do incêndio, ordenou que a empresa implementasse novas medidas de prevenção — orientações que, aparentemente, não foram seguidas.
Comoção pública, eleições em risco e resposta do governo
O governo de Hong Kong cancelou todas as atividades públicas não essenciais para concentrar esforços no apoio às vítimas. As eleições do Conselho Legislativo, marcadas para 7 de dezembro, podem ser adiadas.
A comunidade se mobiliza em centros de acolhimento, onde cerca de 900 moradores desalojados recebem assistência. Voluntários distribuem desde alimentos até fraldas, em um movimento descrito por organizadores como um exemplo de “participação cívica genuína”.
O Executivo local informou que vai oferecer 10 mil dólares de Hong Kong (aprox. €1.100) a lares afetados e um fundo extra de cerca de €4.220 para apoio emergencial.
Próximos passos
A investigação oficial deve durar de três a quatro semanas. Técnicos analisam os materiais usados na obra, os sistemas de segurança e a cadeia de decisões que permitiu o uso de estruturas inflamáveis em um complexo com milhares de moradores.
Enquanto isso, diante dos prédios escurecidos, moradores permanecem ao redor do local observando ruínas que antes eram suas casas.
A Srta. Yu, uma das sobreviventes, sintetizou o sentimento de muitos:
“Eu quero voltar para casa, mas minha casa provavelmente não existe mais. Quando olho naquela direção, meu coração fica muito pesado.”