Às vésperas das eleições parlamentares desta quarta-feira (29), a Holanda se prepara para um pleito marcado pela incerteza e pelo dilema entre o avanço do populismo de direita e a busca por estabilidade política. O pleito é visto como um referendo sobre o futuro de Geert Wilders — líder do Partido da Liberdade (PVV) e figura central da ultradireita europeia — e sobre o apetite dos holandeses por políticas mais rígidas de imigração.
Em Venlo, cidade natal de Wilders, a tensão eleitoral é palpável. O comerciante Hans Schreurs, de 66 anos, dono da tradicional lanchonete Automatiek Piccadilly, afirma que o sucesso de seu negócio não o impede de se preocupar com o futuro dos netos.
“Este país está ficando muito cheio”, diz ele, apoiando o discurso anti-imigração do líder de extrema-direita. “Temo que meus netos acabem competindo com imigrantes pela chance de prosperar.”
Schreurs representa um sentimento crescente entre parte da população holandesa que associa a chegada de refugiados e requerentes de asilo à crise habitacional e à falta de oportunidades — temas centrais na campanha de Wilders, que defende o fim total do asilo político e até o envio do exército para proteger as fronteiras.
No entanto, as opiniões estão longe de ser unânimes. No Café de Blauw Trap, também em Venlo, o proprietário Sonny Evers relata o aumento das discussões sobre imigração e moradia, que têm dividido amigos e famílias.
“Você sente, está se formando uma tensão. Fazia muito tempo que não se falava tanto sobre isso”, comenta Evers, que sediou o lançamento da campanha de Wilders em setembro.
Um país entre o medo e a frustração
A eleição ocorre dois anos após o PVV conquistar o maior número de cadeiras no Parlamento e forçar a queda do governo em junho, ao abandonar a coalizão de direita por considerar suas políticas migratórias “brandas demais”. Desde então, a Holanda enfrenta instabilidade política, desaceleração econômica e aumento do desemprego.
Pesquisas apontam que metade dos eleitores ainda está indecisa, reflexo da desilusão com a classe política. “Prometem coisas completamente impossíveis. Ainda não sei em quem votar”, desabafa Jack Veerman, pintor de 62 anos da cidade de Volendam, reduto tradicional de Wilders.
Entre as principais preocupações dos holandeses estão a crise habitacional — com um déficit estimado de 400 mil moradias —, o aumento do custo de vida e a paralisação de obras causada por restrições ambientais ligadas às emissões de nitrogênio.
Disputa acirrada e futuro incerto
Embora o Partido da Liberdade ainda lidere as pesquisas, o apoio a Wilders mostra sinais de desgaste. Parte de seus eleitores pode migrar para alternativas mais moderadas, como o partido Democrata-Cristão, liderado por Henri Bontenbal, que promete “estabilidade e valores tradicionais”.
Outro adversário de peso é Frans Timmermans, ex-vice-presidente da União Europeia e líder da coalizão Trabalhista-Verde, que defende políticas de imigração coordenadas pela UE e investimentos em moradias sociais.
Com 27 partidos concorrendo e pelo menos 16 com chances de conquistar assentos, a fragmentação deve dificultar a formação de governo. Analistas avaliam que, mesmo se Wilders vencer em votos, ele terá dificuldades para compor uma coalizão, já que tanto a direita moderada quanto a esquerda descartam alianças com o PVV.
Reflexo europeu
As eleições holandesas acontecem em um contexto continental de fortalecimento dos movimentos nacionalistas, especialmente no Reino Unido, França e Alemanha. O resultado servirá de termômetro para medir se o populismo europeu está ganhando novo fôlego ou chegando ao seu limite.
Para o pesquisador Asher van der Schelde, da Ipsos, o impacto internacional também pesa.
“O que está acontecendo agora nos Estados Unidos, todo mundo está observando e preocupado”, diz ele, referindo-se ao legado de Donald Trump — admirado por Wilders, mas visto com cautela por eleitores holandeses que temem posturas antidemocráticas.
Um voto que vai além das urnas
Mais do que escolher 150 legisladores, os holandeses decidirão o rumo de um país que se vê dividido entre prosperidade econômica e insegurança social.
Entre fritadeiras, cafés e mesas de bar em Venlo, há quem veja em Wilders um defensor do “direito dos holandeses” e quem o acuse de semear o medo.
O que parece certo, porém, é que a quarta-feira será decisiva não apenas para a Holanda, mas para o futuro político da Europa.