O avanço das apostas esportivas no Brasil vem acompanhando o ritmo acelerado da digitalização e da paixão nacional pelo futebol — mas também tem despertado sinais de alerta entre especialistas e autoridades. Um levantamento recente da Comissão de Valores Mobiliários (CVM), em parceria com a Fundação Getúlio Vargas (FGV), revelou que o envolvimento com apostas e esquemas financeiros de alto risco está afetando o comportamento e o orçamento de milhões de brasileiros.
Segundo o estudo, divulgado em fevereiro de 2025, quase 1.000 pessoas foram analisadas quanto ao perfil psicológico e educacional relacionado a apostas e investimentos arriscados. Os resultados mostram que o baixo nível de educação financeira e a influência de vieses cognitivos — como o impulso e o otimismo exagerado — estão entre os fatores que mais contribuem para decisões financeiras ruins.
“As apostas esportivas online criam uma falsa sensação de controle e previsibilidade. O jogador acredita estar aplicando raciocínio, quando na verdade está exposto ao acaso”, afirma o economista Luiz Henrique Prado, pesquisador da FGV.
Mercado bilionário em ascensão
De acordo com um estudo da PricewaterhouseCoopers (PwC), o mercado de apostas esportivas movimentou entre R$ 60 e 100 bilhões em 2023, com crescimento estimado de quase 90% entre 2020 e 2024.
Somente no primeiro semestre de 2025, o faturamento do setor chegou a R$ 17,4 bilhões, segundo dados da consultoria BetInfo, com cerca de 17,7 milhões de apostadores ativos.
O perfil predominante dos apostadores é formado por homens jovens, entre 25 e 40 anos, de classe média e média-baixa, com forte presença nas regiões Sudeste e Nordeste.
Entre as pessoas de baixa renda, o cenário é ainda mais preocupante: a PwC estima que 33 milhões de brasileiros já realizaram algum tipo de aposta, sendo 22 milhões que o fazem pelo menos uma vez por mês.
Impacto no consumo e no orçamento familiar
O levantamento da PwC aponta que as apostas esportivas já consomem até 5% do orçamento destinado à alimentação em famílias de baixa renda e até 76% dos gastos com lazer e cultura.
Especialistas alertam que, para parte da população, as apostas estão substituindo outras formas de entretenimento — e, em alguns casos, gerando endividamento.
“É um mercado que cresce mais rápido do que a capacidade de regulação e de educação financeira. Muitos apostadores não percebem o quanto isso impacta o dia a dia da família”, explica Ana Paula Rodrigues, analista de finanças pessoais e consultora da CVM.
Além do impacto econômico, há consequências sociais: relatos de vício em jogos, perda de produtividade e comprometimento da renda familiar têm se tornado cada vez mais comuns, principalmente entre jovens adultos.
Comportamento de risco e ilusão de investimento
A pesquisa da CVM/FGV mostrou também que parte dos brasileiros não diferencia apostas esportivas de investimentos financeiros.
Segundo os pesquisadores, muitos veem o ato de apostar como uma “aplicação estratégica” baseada em conhecimento esportivo — uma percepção enganosa, que mascara o risco real de perda.
“As apostas esportivas exploram o mesmo mecanismo psicológico das pirâmides financeiras: o desejo de ganho rápido e a sensação de pertencimento a um grupo de vencedores”, observa Prado.
A CVM classificou o fenômeno como um “comportamento de risco financeiro emergente”, destacando a necessidade de campanhas de conscientização e educação voltadas especialmente ao público jovem.
Pressão por regulação e combate à manipulação
No campo político, o tema também ganhou força. Em março de 2025, a Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) da Manipulação de Jogos e Apostas Esportivas concluiu que há fraudes e manipulação de resultados envolvendo plataformas de apostas e atletas.
O relatório final recomendou o endurecimento da legislação, com regras claras sobre publicidade, limites de apostas e monitoramento das transações.
O governo federal também avançou na tributação do setor, que agora passa a recolher impostos sobre a receita bruta das empresas e ganhos dos apostadores, medida que deve entrar em vigor até o fim de 2025.
Tendência global, risco local
Relatórios internacionais, como o da Vixio GamblingCompliance, preveem que o Brasil será responsável por mais de 50% do mercado latino-americano de apostas online até 2028.
Apesar disso, o país ainda registra depósitos médios menores do que mercados mais maduros, como o europeu, mas o nível de engajamento é significativamente maior — os brasileiros apostam com mais frequência e permanecem mais tempo ativos nas plataformas.
Segundo dados do Brazil Gaming Pulse Report (Optimove, 2025), o apostador brasileiro fica ativo em média 12,4 dias por mês, contra 7,7 dias na média global.
Educação financeira como antídoto
Os especialistas são unânimes em apontar a educação financeira como principal ferramenta de proteção.
A CVM vem ampliando campanhas para alertar sobre os riscos das apostas e reforçar a diferença entre investimento e jogo de azar.
“Apostar por entretenimento é uma coisa. Mas quando isso começa a afetar o orçamento e a rotina familiar, vira um problema social. A informação é a melhor prevenção”, destaca Ana Paula Rodrigues.
O crescimento vertiginoso das apostas esportivas no Brasil revela um novo tipo de desafio público: equilibrar a liberdade de entretenimento com a proteção social e financeira do cidadão.
Enquanto o mercado segue em expansão e a regulamentação avança, especialistas alertam que a aposta mais segura ainda é o conhecimento.