O escritor húngaro László Krasznahorkai foi anunciado, na manhã desta quinta-feira (9), como o vencedor do Prêmio Nobel de Literatura de 2025. A honraria, concedida pela Academia Sueca, reconhece “sua obra poderosa e visionária que, em meio ao terror apocalíptico, reafirma o poder da arte”. Conhecido por seu estilo narrativo denso e frases longas que exploram os limites da linguagem, Krasznahorkai é considerado um dos grandes nomes da literatura contemporânea europeia.
O comitê destacou que o autor é “um grande escritor épico da tradição centro-europeia, que vai de Franz Kafka a Thomas Bernhard, marcada pelo absurdismo e pelo excesso grotesco, mas que também se volta para o Oriente, adotando um tom mais contemplativo e cuidadosamente calibrado”.
Krasznahorkai, nascido em Gyula, na Hungria, em 1954, já havia recebido reconhecimento internacional, incluindo o Man Booker International Prize em 2015. A falecida ensaísta Susan Sontag o definiu como um “mestre do apocalipse”. Seus romances frequentemente retratam aldeias decadentes e personagens à margem, mergulhados em uma realidade onde o absurdo e a desesperança coexistem com uma busca obstinada por sentido.
“Sátántangó”: o livro que se tornou clássico
Sua obra mais conhecida, Sátántangó, publicada originalmente em 1985, apresenta uma aldeia remota, habitada por figuras estranhas e desajustadas. Entre elas estão um médico alcoólatra, uma jovem com deficiência e um homem enigmático — Irimiás — cuja chegada divide os moradores entre esperança e desconfiança. Com linguagem intensa e imagens de forte impacto, o livro se tornou um marco da literatura húngara moderna e foi publicado no Brasil pela Companhia das Letras.
A adaptação cinematográfica do romance, lançada em 1994 e dirigida por Béla Tarr, com quem Krasznahorkai colaborou no roteiro, tem sete horas de duração e é considerada uma das obras mais importantes do cinema europeu contemporâneo. Sontag chegou a descrevê-la como “fascinante a cada minuto”.

Uma literatura que “olha para o abismo”
A linguagem de Krasznahorkai é notória por suas frases extensas, que se desdobram em reflexões quase hipnóticas. Em um de seus trechos mais célebres, ele descreve o nascer do sol como um movimento cósmico e inexorável, revelando uma estética em que a forma e o conteúdo se fundem para intensificar a experiência do leitor.
Além de “Sátántangó”, obras como A Melancolia da Resistência, de 1989, ampliaram sua reputação internacional. No romance, um circo itinerante chega a uma cidade em ruínas, trazendo a carcaça de uma baleia gigante e desencadeando um ciclo de caos e violência — uma alegoria sutil sobre o fascismo e a manipulação do medo coletivo.
“Para mim, a arte é a resposta extraordinária da humanidade à sensação de perdição que é o nosso destino”, declarou o autor recentemente.
Nobel consagra trajetória singular
A escolha de Krasznahorkai segue uma tradição do Nobel de Literatura de reconhecer autores com uma obra sólida e impactante, ainda que muitas vezes mais reverenciada no meio literário do que amplamente popular. O prêmio, concedido desde 1901, inclui o valor de 11 milhões de coroas suecas (cerca de US$ 1 milhão).
Nos anos anteriores, o Nobel foi concedido à sul-coreana Han Kang, em 2024, e ao norueguês Jon Fosse, em 2023. Agora, com Krasznahorkai, a Academia volta a reconhecer a tradição literária centro-europeia — densa, filosófica e profundamente marcada pelas cicatrizes da história do século XX.
Com esse reconhecimento, László Krasznahorkai consolida-se como uma das vozes mais importantes da literatura contemporânea — um autor que, ao invés de oferecer respostas fáceis, convida seus leitores a encarar de frente os abismos da existência.
