A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) aprovou, na quarta-feira (29/10), a proibição do uso de duas substâncias químicas presentes em produtos cosméticos, de higiene pessoal e perfumes — entre elas, componentes amplamente utilizados em materiais para unhas de gel. A decisão foi tomada durante reunião da Diretoria Colegiada e atende a evidências científicas que apontam risco potencial de câncer e toxicidade para o sistema reprodutivo.
Quais substâncias foram proibidas
A nova norma proíbe o uso dos seguintes compostos:
- Óxido de difenil (2,4,6-trimetilbenzol) fosfina (TPO)
Associado a efeitos tóxicos no sistema reprodutor. - N,N-dimetil-p-toluidina (DMPT)
Classificada como potencialmente cancerígena.
Ambas as substâncias são empregadas com frequência em produtos para unhas de gel, como géis fotopolimerizáveis e esmaltes que endurecem com luz LED ou UV. Segundo a Anvisa, o objetivo é proteger tanto consumidores quanto profissionais de beleza que manipulam diariamente esses produtos.
Riscos à saúde
Estudos internacionais indicaram que os compostos podem representar risco em nível sistêmico, especialmente quando há exposição frequente, como ocorre com manicures, designers de unhas e usuárias que realizam o procedimento com regularidade.
“O risco maior está na exposição cumulativa”, explica uma toxicologista e professora universitária. “Quem aplica unhas de gel semanalmente ou trabalha diariamente com esses produtos está mais suscetível. A ciência já associa essas substâncias a danos celulares e efeitos reprodutivos.”
Dermatologistas apontam, ainda, que o procedimento envolve exposição direta à luz UV, o que agrava a preocupação.
“A fotopolimerização com lâmpadas UV adiciona uma variável de risco”, afirma uma dermatologista especialista em cosmetologia. “Quando somamos substâncias potencialmente tóxicas ao estímulo ultravioleta, ampliamos a chance de inflamações, alergias e, em longo prazo, danos estruturais às células.”
Entre os efeitos associados estão:
- Potencial carcinogênico
- Possíveis danos reprodutivos
- Irritação cutânea e ocular em casos de contato prolongado
- Risco aumentado pela fotoexposição — uma vez que os produtos são ativados por luz UV/LED
A medida acompanha decisões semelhantes já adotadas pela União Europeia.
Prazos e impactos para o mercado
A resolução estabelece que:
- A fabricação, importação e registro de novos produtos com as substâncias ficam imediatamente proibidos.
- Produtos já no mercado poderão ser comercializados por até 90 dias.
- Após o prazo, cosméticos contendo TPO e DMPT deverão ser recolhidos, e seus registros cancelados.
Profissionais da beleza devem verificar a composição dos produtos utilizados e buscar alternativas aprovadas pela regulamentação sanitária brasileira.
Para especialistas em saúde pública, a medida tende a estimular inovação regulamentar no setor de estética.
“Esse movimento pressiona a indústria a reformular produtos com maior rigor científico”, destaca uma especialista em vigilância sanitária. “É uma oportunidade de elevar o padrão de segurança dos cosméticos no país.”
Passado o prazo estabelecido, as empresas responsáveis pela fabricação e distribuição deverão recolher todos os produtos ainda disponíveis em estabelecimentos comerciais e distribuidoras. O objetivo é garantir a completa remoção desses componentes do mercado brasileiro.
Setor em alerta e adaptação
A decisão impacta diretamente o setor de estética e beleza, em especial salões de manicure e marcas de produtos para alongamento e esmaltação em gel. Fabricantes e importadores terão de ajustar fórmulas e linhas de produção para manter produtos disponíveis ao público.
Especialistas do setor afirmam que a tendência é que a indústria acelere o desenvolvimento de alternativas seguras e adequadas às novas regras, evitando desabastecimento e mantendo a qualidade dos procedimentos.
Adaptação dos salões e consumidores
Salões que utilizam técnica de unhas em gel e alongamento deverão revisar rótulos e buscar marcas que já atuam com fórmulas seguras.
“Não se trata de demonizar a técnica, e sim de garantir que ela seja realizada com produtos adequados”, afirma uma consultora em estética profissional. “Há alternativas no mercado, e a tendência é que novos produtos cheguem rapidamente.”
Consumidores também devem ficar atentos.
“É fundamental verificar formulação e procedência”, orienta a dermatologista. “O barato pode sair caro quando o assunto é química aplicada ao corpo.”
O que diz a Anvisa
A agência reforçou que sua atuação tem como foco a proteção da saúde coletiva, e que a medida segue critérios técnicos e científicos rigorosos. O monitoramento de substâncias químicas em cosméticos é contínuo, e outras avaliações podem ser adotadas caso surjam novas evidências de riscos.
Tendência global
A decisão acompanha movimentos internacionais, como a União Europeia, que já havia restringido o uso desses componentes.
Profissionais avaliam que o Brasil entra num novo ciclo regulatório para cosméticos.
“A estética evolui, e a legislação precisa acompanhar,” diz toxicologista. “Saúde e beleza devem caminhar juntas.”