A equipe investigou células de câncer de mama triplo-negativo e do subtipo HER2-positivo, além de células não cancerígenas, para avaliar a atividade antitumoral das substâncias.
Os resultados mostraram que a melitina e o veneno apresentaram atividade contra células tumorais, com efeitos particularmente relevantes nos subtipos triplo-negativo e HER2-enriquecido.
Os pesquisadores também observaram que a melitina interferiu na ativação de duas proteínas envolvidas em mecanismos de crescimento e sinalização celular: EGFR e HER2. Essas proteínas podem participar de processos que favorecem o desenvolvimento de determinados tumores.
Outro resultado importante foi a investigação de uma versão modificada da melitina, à qual foi incorporado um componente molecular destinado a melhorar o direcionamento às células malignas. A estratégia aumentou a seletividade observada nos experimentos, reduzindo relativamente os efeitos sobre células normais.
A equipe também avaliou a combinação da melitina com o docetaxel, um medicamento utilizado na quimioterapia. Em um modelo experimental de câncer de mama em camundongos, a combinação apresentou resultados promissores na redução do crescimento tumoral.
Esses achados, porém, não demonstram eficácia clínica em pacientes. Os resultados foram obtidos em culturas celulares e modelos animais, que não reproduzem integralmente a complexidade do organismo humano.
Fonte: Duffy e colaboradores, npj Precision Oncology, 2020.
Pesquisa de 2024 investigou mecanismos associados à metástase
Outro estudo, publicado em 13 de outubro de 2024 na revista Chemical Biology & Drug Design, ampliou as investigações sobre a melitina e o veneno de abelha.
Os pesquisadores analisaram células da linhagem MDA-MB-231, utilizada em estudos de câncer de mama, e avaliaram alterações em genes relacionados à progressão tumoral e à metástase, processo pelo qual células cancerígenas podem se espalhar para outras partes do organismo.
A pesquisa identificou alterações na expressão de genes associados à supressão da metástase, entre eles BRMS1 e DRG1. Também foram observadas mudanças na expressão de outros genes relacionados à movimentação e à progressão das células tumorais.
Segundo os autores, os resultados sugerem que a melitina e o veneno de abelha podem interferir em mecanismos celulares relacionados à disseminação do câncer.
É importante destacar, entretanto, que alterações em genes e resultados de ensaios laboratoriais não comprovam, por si só, que a substância consiga impedir a metástase em pacientes. Essa possibilidade ainda precisa ser investigada em estudos adicionais.
Fonte: Sivri e colaboradores, Chemical Biology & Drug Design, 2024.
Por que a descoberta ainda não representa um tratamento contra o câncer?
Apesar dos resultados promissores, transformar a melitina em um medicamento seguro e eficaz envolve obstáculos científicos importantes.
Um deles é a seletividade: a substância precisa atingir preferencialmente as células tumorais, sem comprometer as células saudáveis. Outro desafio é controlar sua distribuição pelo organismo e evitar efeitos tóxicos.
A possibilidade de utilizar sistemas de transporte específicos, nanopartículas ou modificações moleculares para direcionar a melitina aos tumores está entre as estratégias investigadas pela ciência.
Também são necessários estudos que determinem as doses adequadas, os efeitos adversos, a segurança e a eficácia do eventual tratamento. Ensaios clínicos em seres humanos são fundamentais para verificar se os benefícios observados em laboratório podem ser reproduzidos em pacientes.
O que essa descoberta representa para a medicina?
A investigação da melitina mostra como substâncias encontradas na natureza podem contribuir para a busca de novas abordagens terapêuticas.
O objetivo dos pesquisadores não é simplesmente utilizar o veneno de abelha como medicamento, mas compreender seus componentes, identificar os mecanismos de ação e desenvolver formas controladas de aproveitar seus possíveis efeitos antitumorais.
Caso as pesquisas avancem com resultados positivos, moléculas derivadas da melitina poderão contribuir para o desenvolvimento de tratamentos direcionados ou de estratégias combinadas com medicamentos já utilizados na oncologia.
Por enquanto, a descoberta representa uma linha promissora de investigação científica, e não uma terapia comprovada. O veneno de abelha pode causar reações alérgicas graves, inclusive anafilaxia, e não deve ser aplicado no corpo nem utilizado como tratamento caseiro contra o câncer.
A continuidade das pesquisas será determinante para esclarecer se a melitina poderá, no futuro, integrar tratamentos oncológicos seguros e eficazes.