O socialista António José Seguro, de 63 anos, foi eleito neste domingo (8) novo presidente de Portugal, ao superar no segundo turno o candidato da extrema-direita André Ventura, do partido Chega. Com mais de 3,3 milhões de votos, Seguro alcançou 66,82% dos votos válidos, contra 33,18% do adversário, segundo dados oficiais com 99,20% das urnas apuradas. A posse está marcada para 9 de março, encerrando o mandato de Marcelo Rebelo de Sousa, que governa o país desde 2016.
A vitória de Seguro marca um feito histórico recente: apenas pela quinta vez desde a redemocratização, em 1976, um presidente português ultrapassa a marca de 3 milhões de votos. Antes dele, apenas António Ramalho Eanes, Mário Soares e Jorge Sampaio haviam alcançado esse patamar — sendo Soares o único a repetir o desempenho, em 1986 e 1991.
Com mais de 11 milhões de eleitores aptos, a eleição teve abstenção próxima de 50%, um índice elevado, mas recorrente em pleitos presidenciais portugueses. André Ventura obteve cerca de 1,6 milhão de votos e reconheceu a derrota ainda na noite da apuração, desejando um “ótimo mandato” ao presidente eleito.
O resultado representa um alívio para a esquerda portuguesa, que enfrenta desgaste político e perdeu espaço na Assembleia da República nos últimos anos. Portugal não tinha um presidente ligado à esquerda desde 2006, quando Jorge Sampaio deixou o cargo, sendo sucedido por Aníbal Cavaco Silva, seguido depois por Marcelo Rebelo de Sousa.
Campanha e segundo turno
Seguro chegou ao segundo turno após liderar um primeiro turno fragmentado e imprevisível, com número elevado de candidatos. Ele obteve 31,1% dos votos (1.755.563), contra 23,5% de Ventura (1.327.021). A campanha do socialista no segundo turno foi marcada pelo apelo ao voto útil, estratégia que se mostrou decisiva.
O presidente eleito se beneficiou da transferência de votos de candidatos eliminados, sobretudo de eleitores de Luís Marques Mendes (centro-direita), mas também de apoiadores de Henrique Gouveia e Melo (independente) e João Cotrim Figueiredo, da Iniciativa Liberal. Ao longo da reta final, Seguro chegou a abrir vantagem superior a 20 pontos percentuais nas pesquisas.
Já Ventura, apesar de crescimento eleitoral recente, enfrentou altos índices de rejeição, especialmente por defender endurecimento das leis de imigração e uma revisão constitucional, propostas que mobilizaram resistência entre eleitores de centro e centro-direita.
O papel do presidente em Portugal
Portugal adota um sistema semipresidencialista, no qual o presidente da República é o chefe de Estado, enquanto o primeiro-ministro exerce a chefia de governo. Embora eleito em candidatura individual, o presidente possui poderes relevantes, como nomear o primeiro-ministro, promulgar ou vetar leis, dissolver o Parlamento, convocar eleições antecipadas, comandar as Forças Armadas e representar o país no exterior.
Desde a redemocratização, Portugal teve como presidentes António Ramalho Eanes (1976–1986), Mário Soares (1986–1996), Jorge Sampaio (1996–2006), Cavaco Silva (2006–2016) e Marcelo Rebelo de Sousa (2016–2026). Com a vitória de António José Seguro, o país volta a ter um presidente identificado com a centro-esquerda após duas décadas.
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