Os líderes da União Europeia (UE) aprovaram nesta sexta-feira (19) a concessão de um empréstimo sem juros de 90 bilhões de euros à Ucrânia para financiar as necessidades militares, econômicas e orçamentárias do país nos anos de 2026 e 2027, em meio à guerra contra a Rússia. A decisão foi tomada após longas negociações em Bruxelas e representa um dos maiores pacotes financeiros já concedidos pelo bloco a um país em conflito.
O acordo, no entanto, veio após o fracasso da tentativa de utilizar ativos russos congelados na Europa como garantia do financiamento. Diante da resistência da Bélgica — onde está depositada a maior parte desses recursos — e de preocupações jurídicas e financeiras, os Estados-membros optaram por emitir dívida conjunta europeia, garantindo o empréstimo diretamente com o orçamento do bloco.
Segundo o Fundo Monetário Internacional (FMI), a Ucrânia precisará de cerca de € 137 bilhões apenas em 2026 e 2027 para manter o Estado funcionando e sustentar o esforço de guerra. O novo pacote europeu cobre aproximadamente dois terços desse montante, enquanto aliados como Noruega e Canadá devem financiar o restante.
Divisões internas e acordo político
Apesar de aprovado pelos 27 países-membros, o financiamento será executado apenas por 24 deles. Hungria, Eslováquia e República Tcheca se recusaram a participar diretamente do empréstimo, mas aceitaram não vetar a iniciativa após receberem garantias de que não sofrerão consequências financeiras.
O primeiro-ministro da Hungria, Viktor Orbán, aliado do presidente russo Vladimir Putin, criticou a decisão e afirmou que o envio de recursos prolonga o conflito.
“Eu não gostaria de uma União Europeia em guerra. Dar dinheiro significa guerra”, declarou.
Na direção oposta, o primeiro-ministro da Polônia, Donald Tusk, defendeu a medida como essencial para evitar uma escalada do conflito.
“A escolha é entre dinheiro hoje ou sangue amanhã”, afirmou.
Bélgica travou uso de ativos russos
O principal impasse nas negociações envolveu a proposta de usar ativos russos congelados, estimados em € 210 bilhões, para financiar o chamado “empréstimo de reparações”. Cerca de € 180 bilhões desses recursos estão depositados na Euroclear, uma grande câmara de compensação financeira sediada na Bélgica.
O primeiro-ministro belga, Bart De Wever, rejeitou o plano por considerá-lo juridicamente arriscado, alertando para possíveis retaliações da Rússia e para danos à segurança jurídica internacional. A pressão aumentou após o Banco Central da Rússia abrir um processo judicial contra a Euroclear, tentando impedir o uso dos ativos.
“Evitamos criar um precedente que poderia minar a segurança jurídica em todo o mundo. A Europa precisa respeitar a lei, mesmo sob pressão”, afirmou De Wever, destacando que, apesar do recuo, o bloco mantém apoio político firme à Ucrânia.
Empréstimo sem juros e garantias futuras
Com o novo acordo, a UE tomará recursos nos mercados financeiros internacionais, com garantia do orçamento europeu. O empréstimo será concedido a juros zero e só deverá ser reembolsado caso a Rússia venha a pagar reparações de guerra no futuro.
O presidente do Conselho Europeu, António Costa, afirmou que a UE “se reserva o direito de utilizar os ativos russos imobilizados” para quitar o empréstimo, caso Moscou seja responsabilizada financeiramente ao final do conflito.
O chanceler alemão, Friedrich Merz, classificou a decisão como uma “mensagem decisiva” a Vladimir Putin.
“Esses recursos são suficientes para cobrir as necessidades militares e orçamentárias da Ucrânia pelos próximos dois anos”, disse, acrescentando que os ativos russos continuarão congelados até que haja pagamento de reparações.
Já o presidente francês, Emmanuel Macron, avaliou que a emissão de dívida conjunta foi “a maneira mais realista e prática” de garantir apoio imediato a Kiev.
Repercussão internacional
A decisão provocou reação do Kremlin. Em coletiva de imprensa, o presidente russo Vladimir Putin afirmou que qualquer uso de ativos russos — mesmo indireto — representa um risco à ordem financeira global.
“Isso destrói a confiança no sistema financeiro internacional. Tudo o que for tomado, um dia terá que ser devolvido”, disse.
Por outro lado, o presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, agradeceu o apoio europeu e destacou a importância do pacote para a estabilidade do país.
“É um apoio significativo que realmente fortalece nossa resiliência”, afirmou.
Dependência crescente da ajuda europeia
Sem a ajuda financeira dos Estados Unidos — amplamente reduzida após a mudança de governo em Washington —, a Ucrânia tornou-se ainda mais dependente do apoio europeu. O orçamento ucraniano para 2026 prevê um déficit equivalente a 18,5% do PIB, com cerca de 30% da economia dedicada a gastos militares.
Desde o início da invasão russa, em fevereiro de 2022, a União Europeia já destinou mais de € 187 bilhões à Ucrânia, sendo cerca de um terço voltado diretamente ao apoio militar.
Apesar das divisões internas, líderes europeus avaliam que o acordo preserva a credibilidade geopolítica da UE, mantém os ativos russos congelados como instrumento de pressão e garante fôlego financeiro a Kiev em um momento crítico da guerra.